“…Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito. Tô morando, trabalhando, estudando e amando. Esses são os quatro foles da minha vida, no momento, e sobre cada um deles eu teria milhares de páginas a preencher.”
Caio Fernando Abreu
“Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.”
Clarice Lispector
“Por muito tempo eu senti um imenso vazio dentro de mim. Um ralo na alma, por onde escorriam todas as minhas felicidades, todos os meus sorrisos efêmeros. Aliás, efêmera era eu, que nunca era um único eu. Quando estava sendo, simplesmente escorria também, e juntava-me aos risos que eu não ria mais – eles que riam de mim.
Por muito tempo eu tentei preencher esse vazio. Tentei preenche-lo com poesia, flores e velas. Mas os amores que se acomodavam ali eram pequenos demais, e quando eu menos esperava, eles escorriam feito areia em ampulheta, e sumiam por aquele mesmo ralo.
Por todo esse tempo eu me senti extrema. Extremamente pequena por não comportar amor algum, extremamente grande por não caber em nenhum amor. Pensei que meu coração era desconfortável, e que por isso ninguém ficava nele por muito tempo. Pensei que o buraco em minha alma era uma rota de fuga, um cano de escape, por onde escapavam todas as minhas ilusões.
Até que eu parei de cultivá-las (as ilusões) e encontrei você. Seus olhos me transportaram por caminhos que eu não conhecia e, mergulhando neles, mergulhei também em mim, refletida em suas íris na minha pior forma. E mesmo assim você me recebeu em seus braços, me aceitou, e me amou como alguém que eu não era (mais), me fez acreditar que eu poderia (voltar a) ser. Me fez acreditar que eu poderia ser sempre – e não só as vezes –, sob a única condição de ser sua.
Só então eu entendi o porquê daquele vazio nunca sumir – até então. Ele era o seu vazio, o seu lugar vago. E entendi que não era eu que era extrema. É que apenas você tem o tamanho exato para caber no meu coração, e todos os outros serão sempre grandes ou pequenos demais. Por isso às vezes eu me sentia só, mesmo estando junto, ou cheia, mesmo estando só. Porque cada um tem a peça perfeita para o seu quebra-cabeça. E você era a minha.
Hoje as minhas felicidades não escorrem mais, no máximo nublam. Mas quando você vem – e faz chover todas as minhas incertezas – o sol volta a brilhar, e eu volto a sorrir os meus próprios sorrisos.”
“Quando o céu escureceu, encoberto por uma espessa camada de nuvens cinza, ela adorou. A chuva era a única coisa que ainda a fazia sentir realmente feliz. Havia algo sobre o cheiro de terra molhada. Havia algo na melodia suave das gotículas de água cortando o vento, beijando o chão.”
“É que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.”
Caio F. Abreu
Agendas…
A melhor coisa na mudança do ano é a necessidade de comprar uma agenda nova.
Há qualquer coisa de especial nas páginas em branco, ainda por escrever.
Há todo um futuro à nossa frente, destinos por cumprir, oportunidades que ainda não surgiram, encontros que ainda não foram combinados, projectos que poderão
nascer, situações que podemos evitar, a ausência de momentos desagradáveis…
É como se fosse possível escrevermos a nossa própria história.
Por vezes, uma vontade incontrolável de assinalar dias ao acaso. Como que a dizer ao universo “Olha aí! Quero apaixonar-me neste dia. Orienta-te, faz o que tens a fazer. Vou apaixonar-me neste dia.”
É pura, arrumada, ainda sem o caos das cores, das linhas, da letra apressada…
E, todos os anos, a mesma promessa: cores diferentes para assuntos diferentes; maior cuidado com a escrita, com a letra, com a estética; escrever sempre, todos os dias, mesmo que no final do dia. Como se, através de uma agenda meticulosa e obsessivamente tratada, pudéssemos retirar o inesperado da nossa vida, a confusão, a desordem, o caos. Como se cada assunto, cada pessoa, cada trabalho, cada peça do puzzle que é a nossa vida tivessem, de facto, cores diferentes, caixinhas individuais… Como se a nossa vida fosse asséptica.
“Existem manhãs em que abrimos a janela e temos a impressão de que o dia nos está esperando.”
Charles Baudelaire
“Às vezes é preciso recolher-se. O coração não quer obedecer, mas alguma vez aquieta; a ansiedade tem pés ligeiros, mas alguma vez resolve sentar-se à beira dessas águas. Ficamos sem falar, sem pensar, sem agir. É um começo de sabedoria, e dói. Dói controlar o pensamento, dói abafar o sentimento, além de ser doloroso parece pobre, triste e sem sentido. (…) Não queremos escutar essa lição da vida, amadurecer parece algo sombrio, definitivo e assustador.”
Lya Luft
“Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada. Viajo sozinha com o meu coração. Não ando perdida, mas desencontrada. Levo o meu rumo na minha mão.”
Cecília Meireles
“Eu sou feita de tão pouca coisa e meu equilíbrio é tão frágil, que eu preciso de um excesso de segurança para me sentir mais ou menos segura.”
Clarice Lispector
“…Na estrada quase morta de todo dia tive saudade dos sonhos.
Dos sonhos óbvios. Dos sonhos possíveis.
Lembrei que julguei ter laços resistentes aos lenços. Lembrei que já tive força para mudar o mundo. E não mudei.
Lembrei de tantas vezes que falei quando deveria calar. E de outras que julgando ser prudente emudeci com a presunção de um sábio.
Lembrei de todas as desculpas que inventei pra não ligar, pra não escrever. E de tantas outras que criei pra não dizer que amava, que amei. Lembrei de tantos perdões que neguei.
Lembrei de das razões que criei pra não ir e das outras que acreditei pra ficar.
Lembrei do tempo em que o tempo não passava.
E foi lembrando que vi chegar o fim de mais um dia com apenas um punhado de sonhos adormecidos. Tudo ficou crônico demais.”
Adriel Gennaro